Uma das sensações mais aliviantes do mundo é levantar uma bandeira branca esfarrapada e assumir: sim, eu preciso de ajuda.
Isso foi o que decidi fazer na semana passada, quando aceitei a indicação de um psicoterapeuta que caiu do céu durante uma das frequentes conversas de cunho existencial que tenho com uma grande amiga. Por pelo menos 5 anos - se não mais - fiz de tudo para não encarar um divã ou coisa que o valha. Insisti nos mesmos erros, cometi outros, tentei acreditar firmemente no poder da minha mente, busquei refúgio naquilo que aprendera na Bíblia, fiz muita besteira, me agarrei nos galhos dos princípios que sempre ouvi e também na bagagem que criei ao longo da vida até que... CRECK! Os galhos eram frágeis, se quebraram e caí na correnteza.
Quase me afoguei num mar povoado por desilusões, decepções e algumas espécies de maldades; bebi água sem querer, aumentei o seu volume com minhas lágrimas sempre discretas e já não via terra firme, sempre aguardando a próxima puxada de tapete.
Dramático? Pois é.
É assim que se sente uma pessoa terrivelmente frustrada.
E, cansada de fingir que isso passaria com o tempo, aceitei que há problemas psíquicos que não venceria sozinha. Daí decidi procurar um psicanalista, psiquiatra, psicólogo, sei lá! Meu conhecimento dessas áreas é praticamente nulo, confesso. De tão lógica e exata que é minha linha de raciocínio tecnológico, nunca soube diferenciar.
Então ontem tive a primeira consulta, a de avaliação. Ao entrar na pequena sala branca me deparei com um sofá pequeno, de dois lugares. Em frente a ele uma poltrona da mesma cor do sofá (um amarelo queimado que deve ter a ver com cromoterapia, já que a cor traz aconchego) e na mesinha lateral aquilo que eu sempre temi encontrar em um consultório: uma caixa com lenços de papel. Imediatamente pensei: "em breve me encontrarei em prantos na frente de um semi-desconhecido, falando sobre todos os traumas que não tenho coragem de contar nem para os amigos mais próximos". Ao menos não com tanta franqueza ou completeza. E ali estavam os lenços do psicólogo, símbolo máximo da derrota emocional de um indivíduo.
Passado esse fatídico encontro e o raciocínio automático - coisa que durou ao todo uns 5 segundos - continuei olhando em volta a fim de me familiarizar com o local: uma mesa de jantar preta, encostada em uma parede agradavelmente pintada de vermelho, mesa essa onde deixei minha bolsa antes de sentar no sofá. Sim, é apenas um sofá! Nada de divã, ufa! Pela janela ao meu lado, as árvores do bairro Moinhos de Vento e passarinhos felizes pela linda tarde de sol que a cidade recebia depois de semanas cinzentas.
- Então, vamos lá, diga-me por que você está aqui - falou o psicólogo ao sentar na poltrona à minha frente. Ele é como minha amiga descreveu: um rapaz (novinho!) muito simpático e visivelmente próximo da minha realidade. Que bom, pois meu segundo medo era ficar frente a frente com um psicanalista enfezado ou uma senhora cuja juventude ficou lá antes dos tempos da brilhantina. Enfim, meu medo era fazer terapia com quem pudesse trazer uma visão antiquada das coisas. Todavia ele me passou confiança imediatamente; e me refiro a confiança no sentido de cumplicidade, entende?
Bem, me sentia estranha ao falar de frustrações que me afligem a alguém que até então não me conhecia. Afinal, na maioria das vezes sou eu quem ouve as agruras alheias, tentando aconselhar e oferecer meu ombro. É difícil receber atenção genuína, o que não deixa de ser uma das minhas frustrações a tratar. Apenas uma delas. Mas falei mais do que esperava, o que foi surpreendente.
Após um overview do meu caso e do psicólogo ter explicado qual é o ramo da psicoterapia com que ele trabalha, "fechamos um contrato", ou seja, entendi que o seu método é o mais adequado para tentar resolver essa pessoa mal formada emocionalmente que escreve. Então vamos de Terapia Cognitiva Comportamental nos próximos meses (serão apenas meses?), para ver se é possível reencontrar o caminho das pedras.
Não vou mentir que já estou confiante, pois pago pra ver. Literalmente. E pagarei caro, inclusive tendo que me reorganizar financeiramente para quitar as consultas - o que não deixa de ser bom, pois sem um estímulo concreto eu não conseguiria largar algumas más práticas de esbanjamento - porém vou me dedicar a esse período com toda a boa vontade do mundo, afinal o interesse é meu.
E como parte do processo de desconstrução emocional, vetei a mim mesma o direito de pensar. Se na maioria das vezes em que tentei encontrar as respostas me ferrei, entendi errado ou mesmo meti os pés pelas mãos, não será agora que fará diferença. Assim, até a terapia começar de fato e passar a produzir resultados, vou procurar viver um dia por vez sem neuras e sem me importar. Não será fácil, eu sei. Só que me despi do velho exoesqueleto naquele consultório, e estou em transição. É proibido continuar calcificando os mesmos problemas. É no mínimo inteligente.
Por fim, espero que escrever nesse espaço ajude-me a entender tudo o que acontecerá daqui pra frente. Não é todo dia que se decide mexer no lado B da vida - o lado da alma.
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