Fui feliz em Buenos Aires

Segundas-feiras nunca são agradáveis por definição; mas as minhas passaram a ser particularmente difíceis em função da terapia. Não é que eu não esteja curtindo - muito pelo contrário, tomo um táxi-lotação em direção ao consultório com muito gosto - porém após remexer no lado B, ocorre que sempre saio totalmente atordoada pelo rearranjo mental/emocional proporcionado pelo Igor, e passo o resto da tarde repensando no que foi remexido. Não bastasse isso, segundas e quartas é dia de aula de desenvolvimento de pessoas na universidade, onde a professora costuma fazer mesas-redondas para discutir competências, planos de carreira, anseios e tudo o que houver de mais subjetivo a esse respeito. Justo agora que não sei mais o que pensar da vida, ela cobra meu posicionamento sobre minha carreira. Ai, céus! Em resumo: segundas-feiras têm me deixado moída por dentro.

Mas não é sobre isso que quero escrever hoje - até porque não tem nada a ver com o título ali em cima. O fato é que na consulta de ontem fui introduzida ao humoródromo, que é uma escala de medida do meu estado de espírito atual. Para estabelecer os valores superior e inferior dessa escala, Igor me questionou qual foi o momento em que me senti mais feliz em toda a minha vida e o momento em que me senti terrivelmente entristecida. Com um pouco de reflexão e certa facilidade consegui eleger o episódio que me derrubou até o fundo do poço, entretanto pensar no lado up da escala foi bastante duro. Ou seja, percebi naquele momento que eu não tinha tido um momento de extrema felicidade que se destacasse. Não bom, não bom. E acabei reportando uma situação de caráter profissional, não muito convincente nem para mim, mas foi o que me ocorreu na hora.

Porém assim que saí do consultório e tomei uma rajada de vento no rosto veio um insight de quando fui o mais próximo de feliz que se pode ser nessa vida medíocre que vivo. Foi na semana de férias que passei em Buenos Aires no último verão. Mas... por quê? Essa foi a pergunta seguinte.

Talvez por ter me desligado totalmente do cotidiano. Talvez por estar encarando sozinha uma experiência nova. Quem sabe porque estava aberta a conhecer pessoas novas, desafiada a compreender e me fazer entender em diversos idiomas, sem saber que planetário habitaria o mesmo quarto que eu no hostel a cada noite. Ou porque me via perdida por uma cidade semi-conhecida com pessoas que nunca vi na vida mas que se tornaram bons amigos imediatamente. Ou ainda por não ter nenhum compromisso rotineiro - nem louça, nem softwares, nem livros acadêmicos, nem supermercado - e estar verdadeiramente livre. Por descobrir todos os dias lugares novos, viver experiências inéditas e poder passar o dia sob o sol. Enfim, eu fui feliz em Buenos Aires.

Isso me fez pensar a respeito do que me motiva de verdade. Se nasci para passar 9h/dia dentro de um escritório pensando em problemas computacionais. Se Porto Alegre me basta. Se [tentar] ser bem sucedida é melhor do que ser livre. Se vou gastar outros 27 anos nessa vidinha.
Ou se minha felicidade está em qualquer outra cidade do mundo que não esta.

Pensamentos soltos do dia #1

Sensação de viver uma vida medíocre.
Falta de amor é bem pior do que falta de dinheiro.
Gostaria de tomar uma pílula e adormecer por cerca de um ano, ininterruptamente. Ao acordar, que estivesse graduada e livre.
Eu seria feliz se pudesse colocar uma mochila nas costas e viajar sem obrigação de retornar.
Pessoas que largam seus empregos brasileiros para passar um tempo fora do país ou são corajosas desapegadas, ou tem família que banca tudo. Admiro as primeiras e repugno as últimas.
Trabalhar com gente estúpida acaba com o meu dia.
Minhas crises de ansiedade ainda vão me matar. E isso não é drama.
Gostaria de não ter obrigações paralelas por um bom tempo.
Passar 9h/dia dentro de um escritório tem acabado com meu ânimo.
Burrice e acomodação intelectual são diferentes, mas ambas irritam-me profundamente.
Odeio muito barulhos indesejados. Tipo zoeira no ambiente de trabalho quando é preciso se concentrar ou conversa fiada durante as aulas na faculdade.
Uma pessoa que não se importa em te dar feedback não merece seu pensamento.
É preciso urgentemente pensar em uma forma de ter uma vida digna (financeiramente) sem gastar a juventude sob uma luz artificial.

Estamos evoluindo

Nunca achei que seria fácil falar sem pudores, mas sou obrigada a assumir que é deveras duro tentar não escolher as palavras que uso durante as respostas a cada pergunta incisiva do Igor. Sim, porque não devo pensar no que vou falar, devo apenas falar com uma sinceridade que não costumo ter nem comigo mesma.
Entretanto a etapa investigativa - ou como o Igor mesmo diz, a etapa de revirar as gavetas - tem sido produtiva por conta do formato adotado por ele: perguntas e respostas com um tema meio que determinado para cada encontro. Isso tem ajudado bastante para eu não ter a impressão de que preciso me derramar sobre o carpete por conta e risco, além de remexer em histórias que sequer lembrava.

E, na minha ansiedade habitual, penso que das três sessões que já tive está se desenhando um quadro de depressão.
Tá, pode ser que não, mas eu adoooooro justificar minhas próprias atitudes.

Porém uma coisa é certíssima: me sentirei muito melhor se for diagnosticada com alguma doença do que se não for. Afinal pelo menos assim saberei que tudo o que tenho passado não é em vão, e principalmente, que eu tenho solução!

A lei da contradição eterna

A última sexta-feira serviu para provar a lei do desinteresse x procura nos relacionamentos.
Explico.

Você já ouviu aquele clichê de que quando você decide não esperar mais nada de uma pessoa - já que ela lhe decepcionou várias vezes - é que essa pessoa ressurge?

Pois é. Me entristeci um punhado de vezes com um carinha que vinha fazendo o que todos os homens fazem quando creem que têm uma mulher sob seu reino: me enchia de desculpas para não nos vermos. Era o excesso de trabalho, as atividades que assumiu por um período de dois meses, o escasso tempo que restava e era preciso dedicar à família, e por aí vai. Não que tudo isso não seja verdade, porém o guapo visivelmente vinha encontrando tempo para sua vida social anyway. Eu excluída. E apesar disso, sempre que nos falávamos eu decidia esperar por mais um tempo, afinal, nada tenho a perder mesmo... que mentira.
Claro que criei expectativas com relação a esse homem; é inevitável e faz parte da natureza humana se apegar quando se encontra alguém especial. Entretanto será que é realmente especial, ou sou eu que estou mirando com lentes cor-de-rosa?
Apostei na segunda alternativa, e o coloquei na geladeira a fim de preservar minha moral.

Passados não muitos dias do resfriamento alheio, na sexta-feira pouco antes do meio-dia bipa meu celular, anunciando um SMS. Como naquela manhã eu estava combinando um encontro com amigas para logo mais à noite, jamais imaginei que não seria uma das meninas dando feedback. Mas era uma mensagem do referido, dizendo simplesmente que estava naquele momento em frente ao prédio onde trabalho.
Hm, tá, e daí? Que resposta ele esperava de mim?
Peguei o celular e liguei para ganhar tempo, e o que se seguiu foi uma conversinha molenga entremeada das desculpinhas padrão e... nada de concreto. WTF?! Eu tinha sido avisada às 11:30h de que o dito cujo estava a 50m de mim mas a ideia não era almoçarmos juntos? Tenha dó!

Em minha reação normal, diria que desceria para vê-lo pelo menos. Afinal, era uma oportunidade... mas não. Seria colocar a perder meu posicionamento e demonstrar que não importa o quanto eu não seja valorizada por ele, estaria sempre pronta. Bem capaz! Não há necessidade alguma de atropelar os fatos dessa maneira. Assim, disse-lhe que, sim, não estou contente com a falta de consideração dele e, sim, estava chateada, mas não estou mais. Porque sequer vale a pena estar chateada. E encerrei o telefonema.

Confesso que desci para almoçar com minha turma 15 minutos depois olhando para todos os lados, garantindo que ele não estava mais por ali. Porém contente comigo mesma por não me desestruturar na hora errada, e por nada além de ansiedade. E também por ter tomado a prova de que basta você se desapegar, que algo que você queria acontecerá. Ou mais ou menos isso.

Já começamos com um problema

Desde o primeiro encontro até o próximo haverá um intervalo de 10 dias, já que estarei viajando no começo da semana que vem.
O problema? Já estou com um grau de ansiedade sem tamanho para colocar a mão na massa. Esses 10 dias serão uma eternidade e a ansiedade será incrementada exponencialmente até lá.

A caixinha de lenços

Uma das sensações mais aliviantes do mundo é levantar uma bandeira branca esfarrapada e assumir: sim, eu preciso de ajuda.
Isso foi o que decidi fazer na semana passada, quando aceitei a indicação de um psicoterapeuta que caiu do céu durante uma das frequentes conversas de cunho existencial que tenho com uma grande amiga. Por pelo menos 5 anos - se não mais - fiz de tudo para não encarar um divã ou coisa que o valha. Insisti nos mesmos erros, cometi outros, tentei acreditar firmemente no poder da minha mente, busquei refúgio naquilo que aprendera na Bíblia, fiz muita besteira, me agarrei nos galhos dos princípios que sempre ouvi e também na bagagem que criei ao longo da vida até que... CRECK! Os galhos eram frágeis, se quebraram e caí na correnteza.
Quase me afoguei num mar povoado por desilusões, decepções e algumas espécies de maldades; bebi água sem querer, aumentei o seu volume com minhas lágrimas sempre discretas e já não via terra firme, sempre aguardando a próxima puxada de tapete.

Dramático? Pois é.
É assim que se sente uma pessoa terrivelmente frustrada.
E, cansada de fingir que isso passaria com o tempo, aceitei que há problemas psíquicos que não venceria sozinha. Daí decidi procurar um psicanalista, psiquiatra, psicólogo, sei lá! Meu conhecimento dessas áreas é praticamente nulo, confesso. De tão lógica e exata que é minha linha de raciocínio tecnológico, nunca soube diferenciar.

Então ontem tive a primeira consulta, a de avaliação. Ao entrar na pequena sala branca me deparei com um sofá pequeno, de dois lugares. Em frente a ele uma poltrona da mesma cor do sofá (um amarelo queimado que deve ter a ver com cromoterapia, já que a cor traz aconchego) e na mesinha lateral aquilo que eu sempre temi encontrar em um consultório: uma caixa com lenços de papel. Imediatamente pensei: "em breve me encontrarei em prantos na frente de um semi-desconhecido, falando sobre todos os traumas que não tenho coragem de contar nem para os amigos mais próximos". Ao menos não com tanta franqueza ou completeza. E ali estavam os lenços do psicólogo, símbolo máximo da derrota emocional de um indivíduo.
Passado esse fatídico encontro e o raciocínio automático - coisa que durou ao todo uns 5 segundos - continuei olhando em volta a fim de me familiarizar com o local: uma mesa de jantar preta, encostada em uma parede agradavelmente pintada de vermelho, mesa essa onde deixei minha bolsa antes de sentar no sofá. Sim, é apenas um sofá! Nada de divã, ufa! Pela janela ao meu lado, as árvores do bairro Moinhos de Vento e passarinhos felizes pela linda tarde de sol que a cidade recebia depois de semanas cinzentas.

- Então, vamos lá, diga-me por que você está aqui - falou o psicólogo ao sentar na poltrona à minha frente. Ele é como minha amiga descreveu: um rapaz (novinho!) muito simpático e visivelmente próximo da minha realidade. Que bom, pois meu segundo medo era ficar frente a frente com um psicanalista enfezado ou uma senhora cuja juventude ficou lá antes dos tempos da brilhantina. Enfim, meu medo era fazer terapia com quem pudesse trazer uma visão antiquada das coisas. Todavia ele me passou confiança imediatamente; e me refiro a confiança no sentido de cumplicidade, entende?

Bem, me sentia estranha ao falar de frustrações que me afligem a alguém que até então não me conhecia. Afinal, na maioria das vezes sou eu quem ouve as agruras alheias, tentando aconselhar e oferecer meu ombro. É difícil receber atenção genuína, o que não deixa de ser uma das minhas frustrações a tratar. Apenas uma delas. Mas falei mais do que esperava, o que foi surpreendente.
Após um overview do meu caso e do psicólogo ter explicado qual é o ramo da psicoterapia com que ele trabalha, "fechamos um contrato", ou seja, entendi que o seu método é o mais adequado para tentar resolver essa pessoa mal formada emocionalmente que escreve. Então vamos de Terapia Cognitiva Comportamental nos próximos meses (serão apenas meses?), para ver se é possível reencontrar o caminho das pedras.

Não vou mentir que estou confiante, pois pago pra ver. Literalmente. E pagarei caro, inclusive tendo que me reorganizar financeiramente para quitar as consultas - o que não deixa de ser bom, pois sem um estímulo concreto eu não conseguiria largar algumas más práticas de esbanjamento - porém vou me dedicar a esse período com toda a boa vontade do mundo, afinal o interesse é meu.

E como parte do processo de desconstrução emocional, vetei a mim mesma o direito de pensar. Se na maioria das vezes em que tentei encontrar as respostas me ferrei, entendi errado ou mesmo meti os pés pelas mãos, não será agora que fará diferença. Assim, até a terapia começar de fato e passar a produzir resultados, vou procurar viver um dia por vez sem neuras e sem me importar. Não será fácil, eu sei. Só que me despi do velho exoesqueleto naquele consultório, e estou em transição. É proibido continuar calcificando os mesmos problemas. É no mínimo inteligente.

Por fim, espero que escrever nesse espaço ajude-me a entender tudo o que acontecerá daqui pra frente. Não é todo dia que se decide mexer no lado B da vida - o lado da alma.